Albert Collins, o "Mestre da Fender Telecaster", o "Homem de gelo", a "Lâmina de corte", foi privado de alguns de seus melhores anos como "astro do Blues" por causa da luta contra um câncer de fígado que terminou por matá-lo prematuramente no dia 24 de novembro de 1993. O amplamente influente e totalmente original Collins tinha apenas 61 anos de idade e estava no ápice, liderando um vasto séquito mundial de fãs durante seu contrato com a Pointblank (uma subsidiária da Virgin Records). Mas esta posição de arrebatador sucesso alcançada a partir de meados dos anos 80 só veio após ele ter tocado por muitos e muitos anos, na quase obscuridade.
Collins nasceu no dia 1º de outubro de 1932, em Leona, Texas. Sua família mudou-se para Houston quando tinha 7 anos. Ele cresceu na "Terceira Ala" (uma das 6 áreas históricas da cidade) e, com companheiros como Johnny "Guitar" Watson e Johnny "Clyde" Copeland, passou a ter aulas de teclado (em sua adolescência, seu ídolo era o organista Jimmy McGriff, um ás do Hammond B-3). Porém, por volta de seus 18 anos, ele trocaria para a guitarra ao ouvir heróis como Clarence "Gatemouth" Brown, John Lee Hooker, T-Bone Walker e Lightnin' Hopkins (seu primo) em apresentações nos clubes noturnos da região.
Collins começou tocando, nesses mesmos clubes, no meio da década de 50, buscando seu próprio estilo (que viria a ser chamado "gélido", caracterizado pela combinação de um eco glacial, estilhaçadas, espiraladas e sustentadas notas altas, um ataque ultrapercussivo de mão direita, pelo raro uso de afinações em tons menores e um trastejador - o famoso "capo", dispositivo usado para encurtar as cordas e assim tornar as notas mais agudas). Também, foi nessa época, que ele iniciou suas "guitar walks" (passeios no meio da audiência), que o tornariam enormemente popular entre as plateias de jovens brancos, mais tarde nos anos 80.
Liderando uma banda de 10 elementos, os "Rhythm Rockers", ele gravou seu primeiro compacto, "The Freeze", em 1958, para o selo local "Kangaroo". Este single foi seguido por um monte de outros, todos instrumentais e com títulos curiosos ("Sno-Cone", "Icy Blue", "Thaw Out" e "Don't Lose Your Cool", entre eles). Estes trabalhos trouxeram a Collins a formação de uma base regional de seguidores. Após gravar "De-Frost" (que tinha no lado B, "Albert's Alley") para o selo Hall-Way (de Beaumont, Texas), ele alcançaria o primeiro grande sucesso com "Frosty", um single que vendeu 1 milhão de cópias.
Os jovens Janis Joplin e Johnny Winter, ambos crescidos em Beaumont, estavam dentro do estúdio, quando a faixa foi gravada. Conforme Collins afirmaria mais tarde, Joplin corretamente previria que aquele "cool sound" seria um enorme "hit", tanto que viria a integrar definitivamente seu repertório em shows pelos 30 anos seguintes. De fato, era um estilo arrebatador, tornou-se sua marca e passou a influenciar outros (Jimi Hendrix citaria Collins como uma de suas influências num sem-número de entrevistas).
Pelo resto dos anos 60, Collins permaneceu em empregos durante o dia, enquanto levava à frente sua música em pequenas turnês regionais nos fins de semana. Ele gravaria por outros pequenos selos do Texas (incluindo o Great Scott, o Brylen e o TFC). Em 1968, Bob "The Bear" Hite (do grupo de Blues-Rock "Canned Heat") passou a se interessar pela música de Collins e viajou até o Texas para ouvi-lo ao vivo. Hite tomou Collins e o levou para a Califórnia, onde ele imediatamente assinou com a Imperial Records.
Entre 1968 e 1969, o movimento roqueiro de "revival" do Blues cresceu e Collins captou a maior e mais ampla exposição ao abrir shows para grupos como "The Allman Brothers" (no Fillmore West, em São Francisco).
Collins fixou, então, suas operações em Los Angeles (de onde ele só saíria, no fim dos anos 80, ao ir para Las Vegas). Lá, gravou três álbuns para a Imperial antes de mudar-se para Tumbleweed Records, onde diversos singles foram produzidos pelo guitarrista Joe Walsh (já que o selo era de propriedade de Bill Szymczyk, produtor dos Eagles), até que o selo fechasse, em 1973.
Apesar de Collins não ter gravado muito durante os anos 70 e começo dos 80, seus compactos mantiveram suficiente apelo nos EUA e isso viabilizou que continuasse em turnês, dirigindo seu próprio ônibus, de cidade a cidade (pelo menos, até 1988, quando ele e sua banda de apoio - os Icebreakers - finalmente puderam contratar um motorista).
A grande explosão de sucesso para Collins veio em 1977, quando ele assinou com a Alligator Records (uma gravadora de Chicago) e lançou o absolutamente brilhante álbum "Ice Pickin'", que lhe traria o prêmio de melhor álbum de Blues do ano e uma indicação ao Grammy. Collins ainda gravaria outros seis discos lá (todos sensacionais e que o ajudariam a faturar todos os prêmios disponíveis do mundo do Blues), culminando com "Cold Snap" (de 1986, outro indicado ao Grammy), no qual Jimmy McGriff tocou.
Foi na Alligator que Collins desenvolveu seus vocais e, trabalhando com sua esposa Gwen, compôs muitas de suas canções clássicas ("Mastercharge", "Conversation With Collins", dentre outras). Percebendo que o Blues estava tornando-se forte de novo no meio da década de 80 (pelo interesse em Stevie Ray Vaughan), ele procurou aproveitar disso. Foi uma sequência de ótimos discos na Alligator: "Live In Japan", "Don't Lose Your Cool", "Frozen Alive!" e "Frostbite". Com seus colegas guitarristas Robert Cray e Johnny "Clyde" Copeland, gravou "Showdown!" (de 1985), que faturaria um Grammy. Neste mesmo ano, Collins tornou-se o bluesman com maior visibilidade ao atuar junto com George Thorogood no espetacular "Live Aid".
Em 1989, após assinar com a Pointblank, Collins lançou "Iceman" (de 1991), além de uma coletânea, "Collins Mix", em 93. Reedições de suas gravações iniciais ("Complete Imperial Recordings", pela EMI, e "Truckin' With Albert Collins", pela MCA) fomentaram um novo crescimento de sua popularidade levando-o a encabeçar todos os maiores festivais de Blues e ao circuito de shows em teatros. Relacionar todas as sessões de gravação de que Collins participou é algo difícil, pois ele tocou, entre outros, em discos de David Bowie ("Labyrinth"), John Zorn ("Spillane"), Jack Bruce ("A Question Of Time"), John Mayall ("Wake Up Call"), B. B. King ("Blues Summit"), Robert Cray ("Shame And A Sin") e Branford Marsalis ("Super Models In Deep Conversation"). Nos últimos anos de vida, Collins desfrutou de algum destaque na mídia, fazendo aparições em concertos no Carnegie Hall, no programa televisivo "Late Night With David Letterman", no filme "Adventures In Babysitting" ("Uma noite de Aventuras", no Brasil) e até num chique comercial de vinho, junto com o ator Bruce Willis. O processo de revitalização do Blues que Collins, Vaughan e os Fabulous Thunderbirds ajudaram a criar nos meio dos anos 80 continuaria pelos 90, mas tristemente Collins não teve saúde para continuar e ir em frente.
Discografia
- 1965: The Cool Sound of Albert Collins (TCF Hall 8002) collection of early singles, reissued in 1969 as Truckin' with Albert Collins
- 1968: Love Can Be Found Anywhere (Even in a Guitar) (Imperial LP-12428)
- 1969: Trash Talkin' (Imperial LP-12438)
- 1970: The Complete Albert Collins (Imperial LP-12449)
- 1971: There's Gotta Be a Change (Tumbleweed 103)
- 1978: Ice Pickin' (Alligator 4713)
- 1980: Frostbite (Alligator 4719)
- 1983: Don't Lose Your Cool (Alligator 4730)
- 1986: Cold Snap (Alligator 4752)
- 1991: Iceman (Pointblank VPBCD 3)
Álbuns ao vivo
- 1979: Albert Collins and Barrelhouse Live (Munich Records 225)
- 1981: Frozen Alive (Alligator 4725)
- 1984: Live in Japan (Alligator 4733)
- 1989: Jazzvisions: Jump the Blues Away (Verve 841 287-1)
- 1992: Albert Collins: Live at Montreux 1992 (Eagle Records)
- 1995: Live '92/'93 (Pointblank 40658)
- 1998: Molten Ice (Cass Records 70108) #731237010820
- 2005: The Iceman at Mount Fuji (Fuel 2000)
- 2008: Cold Tremors (Red Lightnin' 250186)
- 2016: Live at Rockpalast: Dortmund 1980 (MIG-Music 90632, 2-CD + DVD set)
- 2017: At Onkel Pö's Carnegie Hall – Hamburg 1980 (DELTA Music, 2-CD-Set)

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